Todos nós temos demônios.
Uns conseguem percebe-los, alguns não percebem até que seja tarde demais,
e outros tornam-se amantes deles.
Eu tenho três.
E possuo atributos para falar deles pois conheço-os bem,
pelo menos dois deles sim,
o terceiro ainda esta a solta, ou melhor - ele é livre.
O primeiro deles vive em uma sala,
no final de uma escada com corrimão feito de canos de ferro de esgoto,
com uma pintura azulada descascada pelo continuo subir e descer das escadas; e é possível sentir o aço sujo ao se amparar nele para se alcançar ou deixar a sala.
A porta da sala segue a mesma aparência do corrimão, porém é feita de madeira, mas com o mesmo tom azulado e descascado, com o marrom da madeira surgindo em suas partes corroídas pelo tempo.
Me assustei muito ao descer esta escada pela primeira vez, e sinto a textura de seu corrimão de canos de esgoto como se fosse hoje e como precisei me amparar nele para conseguir chegar ao fim desta escada.
Não, não há nenhuma tranca nesta porta, nem tão pouco cadeado ou grilhão,
apenas uma simples fechadura muito semelhante as portas das antigas salas de aulas.
Mas só eu tenho a chave.
Uma vez aberta, de pronto se vislumbra o que realmente se assemelha a uma sala de aula,
uma sala de aula bem, bem antiga.
Com carteiras de estudo para os infantes espalhadas desorganizadamente por toda a sala.
Uma lousa com poeira antiga de giz branco, a carteira do mestre com duas gavetas em péssimo estado de conservação e uma sineta em cima da mesa, semelhante as sinetas que vemos nos hotéis de filmes americanos, à também um degrau que separa a mesa e a lousa da parte que se destinava aos estudantes.
Nas paredes cartazes pendem como a pele seca de um cadáver que resiste a se soltar dos ossos.
Ao fundo da sala, em um dos cantos, entre sacos que acomodam restos de trabalhos escolares, papéis de diferentes tipos, tubos de cola seca e mais algumas quinquilharias posso vê-lo, você iria demorar muito para notar a presença dele, não eu.
Não tenho medo.
Sinto pena, e sempre me aproximo devagar para visita-lo.
Seus olhos são embaçados como os dos peixes em um frigorifico de supermercado, seus poros secretam continuamente uma bílis viscosa e pestilenta, mas não sinto nojo dele, consigo até acaricia-lo e sentir seu bafo quente e sulfuroso, como brasa fétida em meu rosto.
Ele tem garras, grandes garras curvas e atrofiadas, ele vem se atrofiando cada vez mais ao passar dos anos eu seguro uma delas com as minhas duas mãos e me despeço dele, temos mais dois para conhecer ainda.
E sim, eu tranquei a porta.
Consegue sentir o aroma, esse perfume doce que acaricia suas narinas e sobe até o cérebro, descendo febrilmente até os seu bagos e fazendo o desejo pulsar em você?
Eu também consigo senti-lo.
Mas conheço sua brevidade, conheço o vazio do último arfar e por fim todas suas loucas, sedutoras e ardentes promessas vazias.
Seus lábios são carnudos e seus olhos de avelã, ele fica preso também, neste caso correntes se fazem necessário, não me aproximo dele, apesar de seus argumentos persuasivos e sedutores; e sempre que me afasto ele me ofende a plenos pulmões, não olho para trás pois temo no que possa ter se transformado toda vez que digo adeus.
Esse foi o segundo.
O terceiro será breve.
Ele é distinto, de poucas palavras, mas as poucas foram assustadoras e verdadeiras, ele é magro veste algo parecido com um terno vitoriano e seu rosto sempre me escapa a visão, ele não gosta de ser visto e ele, como disse é livre.
Um assombroso caixeiro viajante, porém sem amantes, ele vem e vai sem avisos sem promessas, mas sempre volta. Ele me mostrou o que carrega em um de seus bolsos de suas calças empoeiradas pelos séculos; um pequeno canivete com cabo perolado branco, a lâmina tem apenas quatro dedos de comprimento, mas ele sussurrou-me que é o suficiente.
Gabriel Lutti Duarte, final de 34 invernos, 2o11